A Força da Filosofia

 

            Não raro se subestima seu alcance: a filosofia, diz-se, não é mais que um conglomerado de especulações abstratas sem interesse de espécie alguma para a vida; o que importa é estudar as ciências práticas, que nos subministram a base da técnica em todos os domínios (não só a técnica do engenheiro, como também do pedagogo e a do psicólogo), bem como a ciência social, a economia e a política. Porque, “primum vivere, deinde philosophari” (primeiro viver, depois filosofar), e o “philosophari” não tem importância para a vida. Para o autor (da frase), esta concepção, hoje tão difundida, é radicalmente falsa e constitui perigosa aberração intelectual. Limitar o saber a seus aspectos técnico-práticos equivale a supor que bastará sempre saber como isto ou aquilo se faz. Mas, antes da questão do como, importa pôr a questão do por quê. Ora, só a religião e a filosofia lograram dar uma resposta ao último por quê. Não se diga que para tanto basta o senso comum: aquilo que se denomina “o senso comum” aparece não raro na história como simples resíduo de opiniões filosófica anteriores (…).

            Nada mais errôneo do que negar o valor da filosofia para a vida. Sem dúvida, nem sempre o filósofo assume grande importância na realidade quotidiana. Via de regra, seu destino consiste em ser compreendido só após a morte. Houve certamente filósofos que ainda em vida conheceram a glória (Plotino, Tomás de Aquino, Hegel e Bérgson). Mas, mesmo nestes casos, tratava-se mais de uma questão de moda, do que de profunda compreensão. O filósofo não conta para as exigências da hora nem para a moda do dia. Será isto um defeito? Será que o homem, quando é realmente homem, não logra ultrapassar a pura existência do momento? (…)

Quem vive, sem cessar, a vida do espírito, sejam quais forem suas convicções filosóficas, sabe que as coisas se passam de maneira diferente: a filosofia, precisamente porque não se confina no “instante” do momento, nem pretende atuar diretamente sobre a vida, é uma das maiores potências espirituais que nos impedem de soçobrar na barbárie e nos ajudam a continuar sendo homens em grau cada vez mais elevado.

            Mas isto não fica dito tudo. Por fútil que pareça, a filosofia constitui, apesar disso, uma poderosa força histórica. Temos de convir com Whitehead, quando comparando os êxitos de um Alexandre, de um César e de um Napoleão aos resultados, na aparência infrutuosos, dos filósofos, exclama: “é, sem dúvida, o pensamento que transforma a face da humanidade”. Para comprovar tal fato, não é mister remontar com o metafísico inglês até aos pitagóricos. Basta recordar o prodigioso sulco aberto por Hegel, pensador tão extemporâneo e de tão difícil compreensão. Tanto o fascismo como o nacional-socialismo e o comunismo vêem nele, por igual, o iniciador: ele é uma das potências que estão transformando o mundo. O Filósofo, posto a ridículo pelo povo, como um ser inofensivo que vive entregue a seus pensamentos, é, na realidade, uma potência terrível. Seu pensamento tem o efeito da dinamite. Segue seu caminho, conquista os homens um após outro até que logra arrebatar as multidões. Chega o momento em que triunfa de todos os obstáculos e regula a marcha da humanidade – ou estende um sudário por sobre as suas ruínas. Por isso, os que pretendem saber aonde conduz o caminho que trilhamos, procederão acertadamente em atender não aos políticos, senão aos filósofos: o que os filósofos proclamam hoje será a crença de amanhã

– J.M. Bochenski, A Filosofia Contemporânea Ocidental, trad. Br., S. Paulo: Herder, 1962, pg 12-15.

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