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Introdução à Metafísica

junho 23, 2011

Toda questão essencial da filosofia acha-se necessariamente fora de seu tempo. Por duas razões principais. Ou porque a filosofia se projeta para muito além da atualidade. Ou então, porque faz remontar a atualidade a seu passado-presente originário. Como quer que seja, o filosofar é e permanecerá sempre um saber, que não só não se deixa moldar pela medida do tempo, mas ainda submete o tempo à sua própria medida.

            A filosofia se acha necessariamente fora de seu tempo, por pertencer àquelas poucas coisas, cujo destino consiste em nunca poder nem dever encontrar ressonância imediata na atualidade. Onde tal parece ocorrer, onde uma filosofia se transforma em moda, é porque ou não há verdadeira filosofia ou uma verdadeira filosofia foi desvirtuada e abusada segundo propósitos alheios, para satisfazer às necessidades do tempo.

            Por isso também a filosofia não é um saber, que, à maneira de conhecimentos técnicos e mecânicos se possa aprender diretamente ou, como uma doutrina econômica e formação profissional, se possa aplicar imediatamente e avaliar de acordo com sua utilidade.

            Todavia, o que é inútil, pode ser, e justamente o inútil, uma força. O que desconhece toda ressonância imediata na prática de todos os dias pode estar em profunda consonância com o que propriamente acontece na História de um povo. Pode até mesmo ser a sua presonância e prenúncio. O que se acha fora do tempo, terá seu próprio tempo. É o que vale da filosofia. E é essa a razão de não se poder estatuir de per si e em geral a missão da filosofia e, por conseguinte também, o que dela é de se esperar. Cada estágio e cada princípio de seu desenvolvimento traz consigo sua própria lei. Somente, o que a filosofia não pode ser nem prestar, pode-se dizer.

            A filosofia jamais poderá proporcionar imediatamente as forças nem tão pouco criar os modos de agir e as ocasiões, que conduzem a determinada situação Histórica, pela simples razão de concernir de modo imediato apenas a uma minoria. Que minoria? À minoria daqueles que criando transformam, à minoria dos revolucionários. A difusão da filosofia é sempre mediata e segue caminhos incontroláveis, para em algum tempo afinal, mas já de há muito esquecida como filosofia, decair de seu nível originário e transformar-se numa banalidade da existência.

– M. Heidegger. Introdução à Metafísica, Trad. Br. Petrópolis: Vozes, 1966, pg 45-48.

A Força da Filosofia

abril 23, 2011

 

            Não raro se subestima seu alcance: a filosofia, diz-se, não é mais que um conglomerado de especulações abstratas sem interesse de espécie alguma para a vida; o que importa é estudar as ciências práticas, que nos subministram a base da técnica em todos os domínios (não só a técnica do engenheiro, como também do pedagogo e a do psicólogo), bem como a ciência social, a economia e a política. Porque, “primum vivere, deinde philosophari” (primeiro viver, depois filosofar), e o “philosophari” não tem importância para a vida. Para o autor (da frase), esta concepção, hoje tão difundida, é radicalmente falsa e constitui perigosa aberração intelectual. Limitar o saber a seus aspectos técnico-práticos equivale a supor que bastará sempre saber como isto ou aquilo se faz. Mas, antes da questão do como, importa pôr a questão do por quê. Ora, só a religião e a filosofia lograram dar uma resposta ao último por quê. Não se diga que para tanto basta o senso comum: aquilo que se denomina “o senso comum” aparece não raro na história como simples resíduo de opiniões filosófica anteriores (…).

            Nada mais errôneo do que negar o valor da filosofia para a vida. Sem dúvida, nem sempre o filósofo assume grande importância na realidade quotidiana. Via de regra, seu destino consiste em ser compreendido só após a morte. Houve certamente filósofos que ainda em vida conheceram a glória (Plotino, Tomás de Aquino, Hegel e Bérgson). Mas, mesmo nestes casos, tratava-se mais de uma questão de moda, do que de profunda compreensão. O filósofo não conta para as exigências da hora nem para a moda do dia. Será isto um defeito? Será que o homem, quando é realmente homem, não logra ultrapassar a pura existência do momento? (…)

Quem vive, sem cessar, a vida do espírito, sejam quais forem suas convicções filosóficas, sabe que as coisas se passam de maneira diferente: a filosofia, precisamente porque não se confina no “instante” do momento, nem pretende atuar diretamente sobre a vida, é uma das maiores potências espirituais que nos impedem de soçobrar na barbárie e nos ajudam a continuar sendo homens em grau cada vez mais elevado.

            Mas isto não fica dito tudo. Por fútil que pareça, a filosofia constitui, apesar disso, uma poderosa força histórica. Temos de convir com Whitehead, quando comparando os êxitos de um Alexandre, de um César e de um Napoleão aos resultados, na aparência infrutuosos, dos filósofos, exclama: “é, sem dúvida, o pensamento que transforma a face da humanidade”. Para comprovar tal fato, não é mister remontar com o metafísico inglês até aos pitagóricos. Basta recordar o prodigioso sulco aberto por Hegel, pensador tão extemporâneo e de tão difícil compreensão. Tanto o fascismo como o nacional-socialismo e o comunismo vêem nele, por igual, o iniciador: ele é uma das potências que estão transformando o mundo. O Filósofo, posto a ridículo pelo povo, como um ser inofensivo que vive entregue a seus pensamentos, é, na realidade, uma potência terrível. Seu pensamento tem o efeito da dinamite. Segue seu caminho, conquista os homens um após outro até que logra arrebatar as multidões. Chega o momento em que triunfa de todos os obstáculos e regula a marcha da humanidade – ou estende um sudário por sobre as suas ruínas. Por isso, os que pretendem saber aonde conduz o caminho que trilhamos, procederão acertadamente em atender não aos políticos, senão aos filósofos: o que os filósofos proclamam hoje será a crença de amanhã

– J.M. Bochenski, A Filosofia Contemporânea Ocidental, trad. Br., S. Paulo: Herder, 1962, pg 12-15.

BOM SENSO E SENSO COMUM

abril 22, 2011

 

 

                           As expressões “senso comum” e “bom senso” freqüentemente são usadas como se tivessem a mesma significação. Ambas costumam designar um tipo de sensatez que se encontra no horizonte do homem do povo: uma percepção da realidade que não necessita de conhecimentos aprofundados, mas é legítima e dispõe de força própria, porque está apoiada numa experiência coletiva, consensual.

            O filósofo italiano Antonio Gramsci, contudo, propõe uma distinção interessante. Para ele, o “senso comum” expressa uma postura predominantemente passiva; cada sujeito se limita a adotar critérios, comportamentos, modos de sentir e de pensar que predominam na sua sociedade ou no seu grupo. E o “bom senso” é o movimento espiritual pelo qual o sujeito assume uma disposição crítica e, com os instrumentos de que dispõe, enfrenta o desafio de refletir por conta própria sobre as coisas.

            O “senso comum”, então se inclina para a adaptação ao meio, às circunstâncias. E o “bom senso” abre caminho para o uso transformador dos conhecimentos, para o questionamento das condições existentes. Para inovações.

            De acordo com a distinção elaborada por Gramsci, o “senso comum” incorpora elementos difusos de alguns conhecimentos adquiridos, porém tende a dissolvê-los num sistema ideológico impregnado de resignação e conformismo. Instalado nele, o indivíduo enquadra seu pensamento na moldura dos preconceitos da sua cultura, da média das idéias constituídas do seu grupo. E não se aventura a elevar-se ao nível das idéias constituintes, quer dizer, à esfera dos pensamentos novos sobre coisas novas.

           

O “bom senso”, ao contrário, é por sua própria natureza um tanto desconfiado, inquieto, e não se satisfaz como que lhe ensinaram, porque tem consciência de que o conhecimento precisa ser sempre enriquecido, revisto e aprofundado.

            Compreende-se, por conseguinte, que algumas expressões do “bom senso” pareçam meio “insensatas” aos olhos dos representantes do “senso comum”.

            Compreende-se que, do ângulo do “senso comum”, surja muitas vezes uma reação irritada em face das dúvidas, indagações, suspeitas e reservas mentais, suscitadas em nome do “bom senso”.

            Enquanto o “senso comum” tende, inconscientemente, a preservar as certezas subjetivas que o estruturam, recusando-se a rever a base de suas crenças, o “bom senso” é capaz de se debruçar autocriticamente sobre suas próprias convicções, refletindo sobre elas (devemos lembrar que refletir vem do latim reflectere, que etimologicamente significa debruçar-se, flectere, outra vez, re, sobre alguma coisa, não se dando por satisfeito com a primeira impressão obtida a respeito dela).

– Leandro Konder – Filósofo. 

 

      “Chamamos senso comum ao conhecimento adquirido por tradição, herdado dos antepassados e ao qual acrescentamos os resultados da experiência vivida na coletividade a que pertencemos. Trata-se de um conjunto de idéias que nos permite interpretar a realidade, bem como de um corpo de valores que nos ajuda a avaliar, julgar e portanto agir. o senso comum não é refletido e se encontra misturado a crenças e preconceitos.

É um conhecimento ingênuo (não-crítico), fragmentário (porque difuso, assistemático e muitas vezes sujeito a incoerências) é conservador (resiste às mudanças)”.

Maria L. A. Aranha e Maria H. P. Martins.

A NECESSIDADE DA FILOSOFIA HOJE

abril 22, 2011

 

            Vivemos um tempo em que não há espaço para a filosofia. Esse é o tempo das inovações tecnológicas, da multiplicação da informação, da imagem, do culto ao corpo, das relações superficiais, do ego inflamado, da supervalorização do ter/possuir, da decadência e da obsolescência de tudo. Em contraste com o pensamento filosófico que valoriza o conhecimento do ser, que entende que muita informação é só um entulhamento de dados, que procura os fundamentos mais profundos de tudo e não se conforma com o superficial.

            A filosofia foi banida dos currículos, expurgada da Escola. A ordem era produzir uma massa passiva, homens sem consciência, mão-de-obra dócil à implantação do perverso capitalismo monopolista internacional. Qual seria a validade da filosofia na sociedade tecnocrática, a não ser a da crítica radical? A própria compreensão desta questão nos coloca uma outra controvérsia: para que serve a filosofia? E nisto precisamente está o primeiro passo de uma aproximação com a atitude filosófica original.

 A tentativa sempre precária e renovada em responder a esta questão já é filosofar.

PENSAR EXIGE ESFORÇO?

abril 22, 2011

Pensar exige esforço sim. Significa um esforço na direção de uma compreensão maior da realidade que nos cerca. Diferente da “opinião”(em grego DOXA), o pensar requer um certo preparo, uma saída do “lugar-comum”, da opinião e do senso comum também. Por isso quem se dedica a essa atividade possui mais ferramentas(estruturas) para se defender das manipulações e controles. A história registra muitas tentativas e empreitadas em destruir essa força que é a filosofia, a desqualificá-la, a negá-la. Os tiranos, os mistificadores, os dominantes e todos os interessados na alienação e mediocridade do povo preferem uma consciência de rebanho, de fácil manipulação, cativa e obediente, a um questionamento sistemático e profundo sobre a realidade.

            A máxima de Sócrates – “uma vida que não é examinada não merece ser vivida” – tem permanecido como horizonte e estímulo, incitando os homens a assumir como sujeitos as responsabilidades sobre a própria existência.

ATITUDE FILOSÓFICA

abril 22, 2011

 

    Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.

    Quando digo “ele está sonhando ”, referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente.

    Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão. A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela.     Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas. Quando alguém diz “onde há fumaça, há fogo” ou “não saia na chuva para não se resfriar”, afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa a fumaça como efeito, a chuva causa o resfriado como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os fatos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso de nossa vida.

     Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que Glorinha, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os fatos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las em nossa vida. Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, também estamos acreditando que nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tais como são em si mesmas, ora tais como nos aparecem, dependendo da distância, de nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos.

    Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto, longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do sol, também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são, mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos.  Na briga, quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendo os fatos exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário, distorcendo a realidade.

    No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos. Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de falsear. Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.

    Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim: não gostamos tanto de ler romances, ver novelas, assistir a filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está mentindo, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “no duro”, “pra valer”.

    Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis, não estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade, mas também ao caráter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal. Na briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam“objetivas” ou quando falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”, também estamos cheios de crenças silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista, uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra pessoa, esse alguém “perde” a objetividade, ficando “muito subjetivo”. Com isso, acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as coisas tais como são verdadeiramente, enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma.

     Ao dizermos que alguém “é legal ” porque tem os mesmos gostos, as mesmas idéias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas – família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política – nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida. Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio.

    Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

    Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer “está sonhando” ou “ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?

     Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suas afirmações por outras: “Onde há fumaça, há fogo”, ou “não saia na chuva para não ficar resfriado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo ”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?

     Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?

     Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos?

     Se, em lugar de discorrer tranqüilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade?

     E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?

     Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência.

     Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica.

– Marilena Chauí – Convite à Filosofia  Ed. Ática, 2000 – texto adaptado

Quadrinhos e Filosofia

abril 22, 2011

“DEFININDO” A FILOSOFIA

abril 22, 2011

 

     Alguém já disse que não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar. Isso porque não podemos falar em uma filosofia (no singular), mas sim em “filosofias” (no plural). Conseqüentemente definir objetivamente o que seja filosofia é uma tarefa praticamente impossível. Porém podemos ter uma noção do que essa atividade pode significar, através de alguns pensadores. Observe as duas frases abaixo e tire suas próprias conclusões.

                            “A filosofia mora nas geleiras das altas montanhas e tem por única companhia o monte vizinho onde mora o poeta” – F. Nietzsche / Filósofo alemão.

                            “Qual o seu objetivo em filosofia? – Mostrar à mosca a saída do vidro – Wittegenstein/ Filósofo alemão.

A ORIGEM DO NOME

abril 22, 2011

      

 A palavra “Filosofia” aparece na Grécia do século VI a.C. nos escritos de Pitágoras, que não querendo defini-se como “sábio” – em grego “SOPHOS” – prefere autodenominar-se “Filo-sophos” – ou seja “amigo do saber”, aquele que busca a sabedoria, “amante da sabedoria”, para ele uma denominação mais humilde e fiel à sua postura de tentar compreender a realidade de seu tempo. A palavra “Filosofia” formou-se da junção de “Filos/filia” que significa “amigo” e “sophia” que é sabedoria, saber. Aristóteles, no livro I da Metafísica, define Tales de Mileto como o primeiro filósofo.

APRESENTANDO A FILOSOFIA

abril 22, 2011

 

 

 Uma vida que não é examinada não merece ser vivida.”

   – Sócrates

            Você deve estar acostumado a ser visto pelos adultos como um “incômodo”. E isso não deixa de ser verdade. O adolescente passa por uma verdadeira revolução em sua vida, é uma pessoa em movimento, seu corpo se transforma, suas idéias se transformam, seus sentimentos se transformam…Muitos dos que são mais velhos já estão acomodados na vida, e não desejam – na maioria das vezes – mudanças que perturbem sua situação. E é por isso que o jovem incomoda. Ele representa o novo, e essa “novidade” entra em choque com o velho que já passou por esse processo de ser o novo. O jovem é a força do movimento, reagindo contra toda acomodação e, portanto, “incomoda” os acomodados – que se esqueceram de que já passaram por isso.

            Mesmo na escola, você deve viver um pouco dessa realidade, sentindo na pele a situação. Mas talvez com a filosofia seja diferente; talvez com ela você se sinta à vontade. É porque a filosofia é uma jovem de quase 2.700 anos de idade. Desde que surgiu na Grécia, no século VI a.C., a filosofia pode ser caracterizada como uma situação de incômodo, de inconformismo. Ela apareceu porque algumas pessoas – os primeiros filósofos – estavam insatisfeitas com as explicações sobre a realidade que existiam na época.

            Elas se sentiam espantadas diante da complexidade do mundo, e queriam fugir das explicações simplistas que eram dadas. A filosofia surgiu como uma interrogação constante sobre a realidade, e um descontentamento com as respostas oferecidas. Isso fez dela uma eterna revolução, um movimento de construção do saber. Note: a filosofia não é a sabedoria, mas um movimento em sua direção, sempre uma busca. E, como nunca deixou de ser busca, a filosofia não envelheceu: continua hoje tão jovem quanto era em sua remota origem.

            Se a juventude é vista pelos acomodados como um “incômodo”, o mesmo acontece com a filosofia. No século V a. C., Sócrates, já idoso, foi condenado à morte pelo tribunal popular de Atenas. Diziam que ele não acreditava nos deuses da cidade e corrompia a juventude; mas na verdade ele incomodava demais aqueles que se sentiam confortáveis em sua situação. Ao longo de sua história, a filosofia seguiu sendo incômodo, causando desconforto nas pessoas, mas também possibilitando a emergência de novos saberes, de novas perspectivas e possibilidades.

            Não espere da filosofia, portanto, que resolva sua situação de “incômodo”. O que ela pode fazer é deixar você ainda mais incomodado. Mas o ajudará a perceber que o incômodo não é ruim, ao contrário, é o inconformismo que move o mundo, permite que cada um construa sua vida buscando seus próprios caminhos.

            A filosofia não tem uma “receita mágica” para resolver os problemas da vida de ninguém, mas pode ser um instrumento interessante para entendermos melhor as situações pelas quais passamos, possibilitando que façamos escolhas mais bem pensadas.

                          ( Texto extraído e adaptado do livro Ética e Cidadania – caminhos da filosofia. 16° edição. Sílvio Gallo )